27 de out de 2013

'Dilma tem grande insensibilidade social', diz guru da esquerda

Referência de militantes de esquerda em todo o mundo, o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos diz que há retrocessos em segmentos dos direitos humanos no Brasil e critica a presidente Dilma por demonstrar "insensibilidade social".
Segundo ele, isso fica "ainda mais evidente por conta [...] do estilo Lula, que era de muito mais aproximação com os movimentos sociais".
Para Boaventura, no entanto, Marina Silva (PSB) não representa uma alternativa para a esquerda. Ele diz que sua eleição fortaleceria correntes religiosas conservadoras. Além disso, entende que, na economia, Marina seria um retorno ao que havia antes de de Lula. "Ela é uma cara nova para a direita", afirma.
Boaventura veio ao Brasil para o lançamento de dois livros: "Se Deus fosse um ativista dos direitos humanos" e "Direitos Humanos, democracia e desenvolvimento", o segundo em coautoria com a filósofa Marilena Chaui.

Folha - "Se Deus fosse um ativista dos Direitos Humanos" é um título provocador. Sugere que o senhor acredita em Deus. E sugere que Deus poderia dar mais importância para os direitos humanos. É isso?
Boaventura de Sousa Santos - De fato, não. O título é provocador. Eu não me comprometo com a existência de Deus. Sou como Pascal [filósofo francês, 1623-1662]: diria que não temos meios racionais para poder afirmar com segurança se Deus existe ou não. O que podemos é fazer uma aposta: apostar se existe ou se não existe. Como sociólogo, o que penso é que há muita gente que aposta na existência de Deus e que organiza sua vida ao redor disso.
Estamos num momento de fortes movimentos sociais em todo o mundo, com protestos, muita indignação, muita revolta. Alguns desses movimentos trazem no seu interior pessoas e grupos que seguem diferentes religiões. Ou que transformam a religião e a existência de Deus no motivo da ação ou num impulso para a ação. Portanto, eu tive curiosidade de analisar. Esse fenômeno é extremamente ambíguo.

Quando surgiu a curiosidade?
Eu já tinha notado desde o Fórum Social Mundial de 2001, onde vi que havia movimentos sociais e organizações de diferentes partes do mundo com vivências religiosas, como a Teologia da Libertação e outros. Tinham uma dinâmica de grupo onde o elemento religioso, espiritual, era forte. Havia movimentos indígenas, para quem o elemento da religiosidade é sempre forte. Essa dimensão do transcendente é que me fascinou, pois eu venho de uma cultura eurocêntrica, que há muito tempo tenho criticado, mas sou filho dela, por assim dizer. Essa cultura tinha resolvido o problema através do que chamamos de secularismo, que é expulsar a religião do espaço público.

A presença da religião na política está crescendo?
A religião nunca saiu verdadeiramente da política. Temos sociedades que são laicas, mas cujos estados não são. É o caso da Inglaterra, por exemplo. E temos sociedades onde a convivência é mais laica do que outras. Tanto assim que hoje a gente faz distinção entre o secularismo e a secularidade. Secularismo é uma atitude mais radical, de deixar que a religião fique exclusivamente no espaço privado, na família, na vida. Secularidade é aquela que permite que haja expressões [religiosas] no espaço público como afirmação da própria liberdade de todos os cidadãos.
Mas é evidente, a gente sabe, a maneira com que a Europa resolveu a questão da separação da igreja e do Estado no século 17, depois de uma guerra enorme, nunca foi uma separação total. A igreja continuou a ter uma grande influência. Foi assim no esforço da colonização. Continuou com grande influência, ainda tem, nas agendas que o papa Francisco disse recentemente que são as agendas da cintura para baixo (risos), acerca das orientações sexuais, aborto, divórcio. Obviamente são questões de interesse público.
O que parece é que a crise do Estado secular trouxe uma maior presença da religião no espaço público. No mundo árabe, no mundo indiano e também no mundo ocidental. Começou a emergir nas televisões religiosas, cada vez mais e sobretudo com as correntes evangélicas e pentecostais. É uma presença pública muito mais forte, mas também um interesse em influenciar a vida pública, a vida dos Congressos, dos parlamentos. É o que acontece hoje no Brasil.

No Brasil isso parece mais evidente a partir da eleição de 2010, quando o assunto chegou a dominar o debate eleitoral. Como tem sido no resto do mundo?
Na Europa não é tão forte quanto aqui ou nos Estados Unidos. Mas encontramos no próprio mundo islâmico, por outro lado, diferentes formas de afirmação religiosa que não são todas fundamentalistas. Algumas são bastante moderadas. Mas que também se recusam a pensar que sua dimensão espiritual e religiosa não têm nada a ver com suas lutas.
Então o mundo hoje é mais diverso, e dessa diversidade, no meu entender, faz parte uma maneira muito diversa de ver a religião na vida pública. Isso está surgindo por todo lado, com formações bem distintas.
Algumas continuam na base da sociedade, como acontecia com a Teologia da Libertação e as Comunidades Eclesiais de Base. Mas temos nos últimos anos, no Brasil muito claramente, a influência [religiosa] na própria cúpula do Estado, na estrutura política do Estado. Isso é novo.
Era uma corrente que já vinha dos anos 80 dos Estados Unidos. Uma corrente muito conservadora. Um dos grandes líderes dessa corrente nos Estados Unidos fez uma previsão que praticamente se confirmou. Ele disse assim: "quando um dia não houver uma grande diferença entre democratas e republicanos, e se forem todos mais ou menos conservadores, podemos começar a jogar golfe tranquilamente, pois significa que cumprimos a nossa missão".

E a esquerda com isso? Seu livro é uma espécie de ajuste?
O pensamento crítico da esquerda, de uma sociologia crítica, sempre foi muito renitente em analisar o fenômeno religioso. Pois qualquer análise que não seja simplesmente dizer que religião é o ópio do povo fica como suspeita.
Minha experiência no Fórum Social Mundial fez-me crer que, se eu mantivesse essa atitude pouco complexa, eu deixaria fora da minha análise muita gente que genuinamente luta contra a desigualdade, a injustiça, a discriminação, a opressão. Não é gente alienada. É gente que realmente luta por um mundo melhor e que, no entanto, tem uma referência religiosa. Eu não posso considerar que isso é alienante. Então escrevi esse livro também para fazer as contas comigo mesmo.

Qual é a sua conclusão?
Termino dizendo que não há um Deus. Há dois: o Deus dos oprimidos e o Deus dos opressores. Enquanto a sociedade for dividida e houver tanta desigualdade social, penso que o Deus que estiver do lado dos oprimidos não se reconhece num Deus que esteja do lado dos opressores.

O outro livro é sobre direitos humanos, que parece refluir na medida em que aumenta a influência religiosa. Alguns políticos têm como principal plataforma o ataque aos direitos humanos. Quais são as relações entre as duas coisas?
É obviamente uma estratégia religiosa. É uma dimensão de todas as correntes conservadoras, de direita, que existiram ao longo do tempo. Houve, de fato, uma igreja progressista, de esquerda, que achou que sua missão era a missão evangélica do sermão da montanha, de estar com os pobres. Os pobres não estão no parlamento, estão nos bairros, nas favelas. E é para aí que os missionários devem ir. Mas há toda uma outra corrente que nunca aceitou que igreja ficasse fora do governo. Alguns deles entendem que a Bíblia, literalmente, dita o direito para os Estados e que, portanto, os direitos humanos não pertencem a esse direito bíblico. É como no mundo islâmico, onde há conceitos muito hostis aos direitos humanos.
Então, de vários lados, estamos a assistir a um ataque aos direitos humanos. Esse é o tema do meu outro livro, escrito por um sociólogo que se considera um cidadão ativista dos direitos humanos.
Eu também faço uma crítica aos direitos humanos. Mas uma crítica progressista: os direitos humanos são pouco. Então eles são criticados por mim por serem poucos. E a direita critica por serem muito. Eu digo pouco porque acho que a grande maioria dos cidadãos do mundo não são sujeitos de direitos humanos, são objeto de discurso de direitos humanos. São violados constantemente.
Agora, sobretudo após a queda do Muro de Berlim, em que as narrativas socialistas caíram em desuso, pelo menos até agora, o que ficou de luta por uma sociedade melhor foram os direitos humanos. Se o socialismo estivesse na agenda política, eu tenho certeza que essa direita religiosa incidiria completamente contra o socialismo.

Nessa questão dos direitos humanos, em que posição o senhor situa o Brasil hoje?
É uma leitura muito complexa. Há áreas e domínios dos direitos humanos em que tivemos conquistas extraordinárias desde o governo Lula. Eu considero [positiva] toda política de ações afirmativas, do reconhecimento de que há racismo na sociedade brasileira e de que é preciso tomar medidas para que afrodescendentes e indígenas possam ter acesso à educação, numa tradição que vinha desde há muito tempo com Abadias do Nascimento, mas que nunca teve êxito. Também o fato de criar um Brasil mais inclusivo, mais diverso, mais colorido, com mais consciência de sua diversidade étnico cultural. Penso que tudo isso foi um grande avanço.
Onde eu vejo que há retrocesso é em toda a área dos direitos humanos que trouxeram também no seu bojo aquilo que, para um desenvolvimentista, pode ser considerado um obstáculo.
Os direitos humanos trouxeram consigo o reconhecimento dos direitos coletivos. E os direitos coletivos do povos indígenas estão protegidos, internacionalmente, por convenções, aliás, que o Brasil assinou, sobretudo o convênio 169 [da Organização Internacional do Trabalho], que obriga consulta prévia, livre, informada e de boa fé. E de boa fé! E que, hoje em dia, depois da declaração das Nações Unidas de 2007 sobre os direitos dos povos indígenas, firma-se na jurisprudência da Corte Internacional de Direitos Humanos que sempre que estejam em causa a própria sobrevivência de um povo, seja uma barragem, seja um projeto de mineração, a consulta deve ser vinculante. Bem, nesse caso, eu tenho que dizer que tem havido retrocesso.
Não é só na demarcação de terras. Tem ainda a questão de saber se a concessão de novas terras são atribuição do parlamento e não do Executivo, o que seria a mesma coisa que dizer que nunca mais haverá qualquer concessão.
Então eu acho que a presidente Dilma está a perder uma batalha, está realmente com uma grande insensibilidade ao movimento indígena camponês, que foi uma grande forma de transformação em toda América Latina.

O senhor considera o governo Dilma de direita?
Eu venho da Bolívia, estive no Equador, conheço os outros países [da região]. Alguns deles são muito mais à direita no governo, é o caso do México. E lá estamos assistindo a uma grande vitória de um povo indígena que lutou contra uma barragem, La Parota, e conseguiu efetivamente parar essa barragem.
Eu colocaria a presidente Dilma no mesmo pé em que coloco o presidente da Bolívia [Evo Morales] e o governo do Equador. São governos que eu considero progressistas. Não os considero de direita. Eles, de alguma maneira, fazem muito do que sempre fez a direita: têm o mesmo modelo de acumulação, o mesmo modelo capitalista, o mesmo neoliberalismo, aproveitaram a mesma onda de extrativismo, com a reprimarização da economia.
Mas o que esses governos fazem e que a direita nunca fez na América Latina foi redistribuir esses rendimentos de alguma maneira. Distribuem muito mais que os outros governos. Para muitos grupos sociais, isso não é suficiente. Até porque essa forma de redistribuição é relativamente precária, não é com direitos universais, é algo que pode parar de um momento para outro. Mas há problemas. Os ambientais são extraordinários.

Qual o senhor citaria?
É certo que o Congresso é outra coisa. Mas eu fico espantado como é que é possível, estando a frente do país alguém como Dilma Rousseff, como é possível abrir uma discussão sobre a semente Terminator no Congresso. É a semente que fica estéril, a suicida. Isso está suspenso. É ilegal para o mundo inteiro. É um escândalo, se aprovar. Ela foi suspensa no âmbito da convenção de biodiversidade exatamente porque coloca os camponeses nas mãos da Monsanto e das outras três ou quatro empresas que têm a patente. Isso é o fim da agricultura camponesa.
Em muitos países é a agricultura camponesa que alimenta as populações, pois a grande indústria produz soja e outros produtos de exportação. A diversidade da produção agrícola é feita por pequenas propriedades, a agricultura familiar, a camponesa. Portanto isso significa arrogância dessas empresas transnacionais que têm acesso ao parlamento para ditar sua lei. E se você olhar bem, há uma aliança entre os religiosos evangélicos e os ruralistas. Então aqui há uma convergência de forças, uns que vêm da tradição ruralista, outros que vêm de uma tradição religiosa de direita, que se armou contra o comunismo e contra a revolução na América Latina.
Então não considero a presidente Dilma um governo de direita por sua capacidade de distribuição, agora há uma grande insensibilidade, que não vem de agora.

Onde mais há problemas?
Basta ver quantas vezes foram recebidas a CUT e outras entidades antes desses protestos: zero. Portanto significa que a presidente Dilma tem uma grande insensibilidade social, que se tornou ainda mais evidente por conta da posição do Lula, ao estilo Lula, que era de muito mais aproximação com os movimentos sociais. Isso perdeu-se. Eu considero uma perda muito grave.

A ex-ministra Marina Silva tem um discurso mais próximo desses segmentos que o senhor mencionou, meio ambiente, indígenas. Ela serve para a esquerda?
Eu penso que não. Sou amigo da Marina Silva, estive em vários painéis com ela e comungo com ela muitas causas ambientalistas. Mas acho que não porque a influência religiosa no país iria nitidamente continuar a desequilibrar. A dimensão religiosa que está por trás dela é uma dimensão que, no meu entender, tem mais um potencial conservador do que um potencial da Teologia da Libertação. Portanto é um potencializador de uma interferência conservadora na sociedade.
Isso pode ter outras dimensões para os direitos das mulheres, dos homossexuais, para as diversidades sexuais.
Por outro lado, sua política econômica, por aquilo que tenho visto e pelos apoios que ela recorre, é realmente uma tentativa de, com uma cara nova, uma mulher, repor o sistema que estava antes. Seria desacelerar ainda mais as políticas de redistribuição social que foram aquelas que, no meu entender, mais caracterizaram o período Lula.
Não penso que a Marina Silva esteja muito sensível a isso tudo. Então eu penso que ela é uma cara nova para a direita. Não é uma cara para a esquerda, no meu entender.

Milhares de pessoas foram às ruas no Brasil para protestar por diversas causas. Tudo muito rápido e inédito. O senhor tem alguma reflexão sobre o que ocorreu no país?
Analiso os diversos movimentos que surgiram no mundo desde 2011: a primavera árabe, o ocuppy [Wall Street, nos EUA], o dos indignados no sul da Europa e na Grécia, o movimento "Yo soy 132", que é contra a fraude eleitoral no México, o movimento estudantil do Chile em 2012 e também os protestos no Brasil.
Considero que 2011-2013 é um daqueles momentos no mundo como nós tivemos em 1968, 1917, 1848. São momentos de movimentos revolucionários.
O que os caracterizam fundamentalmente hoje? São sinais de que, em muitos países, estamos a entrar num processo de guerra civil de baixa intensidade: uma grande agitação social porque as instituições não funcionam propriamente. Na Europa, a rua é o único espaço público que não está colonizado pelo capital financeiro. Nos EUA, a mesma coisa. Há uma deterioração das instituições, uma ideia de que a democracia foi derrotada pelo capitalismo. No sul da Europa isso parece muito claro, e as ruas e as praças são os únicos espaços onde o cidadão pode se manifestar.

Quem é esse cidadão?
É um cidadão diferente dos [cidadãos dos] processos anteriores. Um erro do pensamento político foi pensar em cidadãos organizados que fazem essas revoltas. De fato, não é assim. Essas revoltas são feitas, normalmente, por jovens que nunca participaram de movimento social, de partidos, que nunca votaram, nunca estiveram em nenhuma ONG. E de repente estão na rua. Isso não foi só aqui. Foi no Egito, na Europa, nos EUA. São movimentos que surgem a partir de momentos em que as instituições parecem não dar respostas às aspirações populares. Obviamente são diferentes. Não se pode pôr a primavera árabe ao lado do Brasil ou do occupy. São coisas distintas.
O movimento do Brasil tem uma genealogia, uma história, semelhante ao movimento dos indignados de Portugal, da Espanha e da Grécia. São jovens democracias onde houve uma expectativa de uma social-democracia, uma democracia com fortes direitos sociais, de educação, saúde, transporte. Havia uma expectativa de uma sociedade mais inclusiva. Essa era a promessa. A democracia não é simplesmente mero voto e a representação política, mas se traduz em direitos sociais e econômicos. Portanto nesses casos [Brasil e indignados], os movimentos surgem da ruína dessas aspirações. Democracias suficientemente jovens para ainda acreditar que eles têm esses direitos.
Os occupy já nem têm sequer essa ilusão, pois a democracia americana é cada vez mais restringida e eu nem acho mais que é uma democracia a sério nos EUA; eu vivo lá metade do ano, como você sabe, e conheço o país.

Uma crise da democracia?
Aqui [no Brasil], a juventude se dá conta que aquela democracia que ela acreditou não funciona, está sendo derrotada pelo capitalismo. Os países dão mais atenção aos mercados internacionais, aos grandes grupos transnacionais, do que dão aos seus cidadãos. Na Europa isso é muito claro. O meu governo [Portugal] está mais atento à agência de classificação Standard & Poor's, sobre o que ela dirá amanhã sobre a taxa de rating do crédito português, do que as demandas dos portugueses, as reivindicações. E quanto mais as pessoas vão para as ruas, mais abaixa a nota do crédito internacional. Ou seja: a democracia está sendo usada contra os cidadãos. A democracia é exercida hoje contra o bem estar. Tinha-se a ideia que caminhávamos para um estado de bem estar. De alguma maneira, hoje, o Estado é um Estado de mal estar. O que aconteceu no Brasil, no meu entender, é essa frustração.
Compartilha com os outros movimentos essa espontaneidade. E o fato de não ser ideologicamente unitária, é o mais diverso possível. E com demandas contraditórias. E com uma característica também comum em todos eles: prevalece o negativo sobre o positivo. Esses grupos, que eu nem chamo de movimentos sociais, chamo de presenças coletivas, sabem o que não querer, mas não sabem bem o que querem. Podem ter uma demanda, como foi o caso do Movimento Passe Livre, mas essa é uma demanda que rapidamente pode ser superada por grandes demandas de superação do Estado. Como aconteceu na Tunísia. O moço que se imolou na Tunísia queria apenas que legalizassem o seu comércio de rua, e de repente aquilo era uma luta contra a ditadura.
O que todos estão a dizer? Estão a dizer que o mundo está escandalosamente desigual. Essa não é uma questão da pobreza. É que nos países, internamente, a diferença entre ricos e pobres nunca foi tão grande. Em meio aos maiores sacrifícios da sociedade portuguesa, com cerca de 50% dos jovens até 25 anos sem emprego, o número de ricos aumentou em Portugal nos últimos anos. E os ricos ficaram ainda mais ricos.

Essa descrição não coincide exatamente com o que ocorreu no Brasil. A distribuição de renda brasileira medida pelo índice Gini ainda é uma das piores do mundo, mas melhorou.
Sim, está reduzindo [a desigualdade de renda], nunca tinha acontecido antes, isso é preciso reconhecer. O que nós temos que ver, isso é minha leitura, é que as políticas que foram criadas para essa redução ocorrer --e por isso que eu digo que [Dilma] não é um governo de direita-- são as que eu chamo de políticas de primeira geração. A segunda geração é que essa gente que agora come bem, agora que tem algum apoio, quer evoluir, quer ir para a universidade, quer outra qualidade dos serviços públicos. E aí estancou.

O senhor disse que esses grupos sabem dizer o que não querem, mas não sabem dizer bem o que querem. No Brasil, entre as coisas que eles diziam não querer estavam os partidos políticos. Teve até hostilidade, violência. O senhor vê isso com preocupação?
Sim, evidentemente. Mas ao mesmo tempo compreendo o que está ocorrendo. É aquilo que eu disse, que a democracia representativa liberal foi dominada e vencida pelo capitalismo, pela corrupção, pela presença do dinheiro nas eleições, nas campanhas eleitorais. Isso faz com que os representantes estejam cada vez mais distantes dos representados. É aquilo que a gente chama de patologia da representação: os representados não se sentem representados por seus representantes.
É um processo conhecido, pois há anos discute-se no Brasil a necessidade de se fazer uma reforma política, uma reforma do sistema eleitoral, do financiamento dos partidos. E todas essas reformas têm sido bloqueadas. Então essa negação não é propriamente a negação da democracia representativa. São duas ligações importantes: esta democracia participativa não serve, o dinheiro não pode ter o poder que tem hoje nas eleições; e a democracia representativa nas sociedades complexas não chega, ela precisa ser complementada pela democracia participativa.
Eu acho extraordinário que, no caso da primavera árabe --jovens de vários países que não tiveram democracia propriamente-- a grande bandeira é a democracia real. Portanto quando dizem que há luta contra os partidos, não é que eles estejam dizendo que, em princípio, eles não têm nenhuma validade. É esta forma de democracia, a do poder do dinheiro, que está derrotada. E se ela não se alterar, temos altos riscos para a sociedade. É por isso que eu digo, escrevi dois artigos sobre isso, que há uma grande oportunidade: a oportunidade de uma reforma política. Esse é grande tema com o qual o PT chegou ao poder, não podemos esquecer.

Mas nos protestos ninguém levantou uma plaquinha sequer pedindo reforma política.
(risos) É por isso que eu digo: as pessoas não sabem o que querem, sabem o que não querem. Como é que se faz formulação política? Para sair daquilo que elas não querem, é preciso uma reforma política. Obviamente. E é por isso que temos partidos.

Eu acho que cabe à classe política encontrar as soluções. Os jovens não têm que saber [como fazer]. Nem dá para exigir que eles saibam. Como é que vai fazer um serviço unificado de saúde suficientemente robusto? Não têm que saber. Há técnicos e há políticos que vão fazer isso. A reforma política é a mesma coisa. E a presidente Dilma deu uma certa esperança quando falou nas cinco medidas que seriam tomadas e incluiu a reforma política, mas, infelizmente, os poderes conservadores do Congresso...

Foi nesse contexto que surgiram os grupos "black blocs", com a tática de causar danos materiais para fazer suas denúncias. Eles aparecem em tudo, da greve de professores à ação para libertar cachorros de um laboratório de pesquisa médica. Qual é a opinião do senhor sobre esses grupos?
Esses grupos nasceram nos anos 70 na Alemanha, na luta contra a energia nuclear. Na década de 80, adquiriram uma ideologia autonomista. A ideia de que "temos que criar na sociedade espaços de autonomia que não dependem do capitalismo e que, portanto, podem oferecer outra maneira de viver". Tiveram muita repercussão.
No momento em que começam os protestos contra a globalização, Seatle (EUA) é o marco, eles começaram a assumir duas características de sua tática: de um lado a ideia de violência contra propriedades símbolos do capitalismo, que pode ser um McDonald's, um banco; de outro lado, a defesa dos manifestantes. Eles assumiram isso. Em muitas mobilizações, foram eles que, diante da violência policial, defenderam mais eficazmente os manifestantes pacíficos. Então a violência policial, no meu entender, é uma das grandes responsáveis pelo protagonismo "black bloc". Eles enfrentavam. E a notícia muitas vezes passava a ser o enfrentamento entre os "black blocs" e da polícia.
Um terceiro fator que complica, principalmente a partir do ano 2000, isso está documentado, é que a polícia infiltra o "black bloc" para depois justificar sua violência. Isso está demonstrado em vários países. E este é o contexto em que nós estamos.

Mas como entender o "black bloc"?
Não são grupos de extrema-direita. Eu penso que, acima de tudo, temos que entender por que surgem esses movimentos. E encontrarmos, através do diálogo, formas de ver se estas são as melhores formas de luta. No meu entendimento, como já disse, estamos num momento político daquilo que chamo de guerra civil de baixa intensidade. Numa guerra assim, queremos que cada vez mais gente venha para a rua. No meu entender, para fazer pressão pacífica sobre os Estados.
Quando o capital financeiro será cada vez mais influentes, quando as Monsantos conseguem pôr no Congresso a [semente] Terminator, quando os evangélicos dominam a agenda política, quando os ruralistas dominam a agenda política, os governos, mesmo que tenham uma orientação de esquerda, precisam ser pressionados de baixo. A partir de baixo. E essa pressão tem de ser pacífica. E tem de ser inclusiva. E para ser inclusiva tem de trazer para a rua as pessoas que nunca foram para a rua, os chamados despolitizados, as avós, os netos.
Ora bem, se é esse o objetivo, o "black bloc" é uma força contraproducente. As pessoas querem ir para a manifestação, mas com medo que haja violência, com medo da brutalidade e violência policial, dizem ao final "não vamos". Penso, portanto, que o "black bloc" deve analisar em que contexto nós estamos.

O ex-presidente Lula fez uma crítica direta ao uso das máscaras. Disse que participou de muita manifestação de rua, mas que nunca usou máscara porque não tinha vergonha do que fazia.
Eu acho que é uma posição legítima, mas não sei se é a única resposta que se pode dar. As pessoas têm suas formas de representação. Exemplo disso é o governo do Peña Nieto, o [partido] PRI, no México, que eu considero de direita. Nas últimas manifestações, o protesto de professores no México, teve a presença dos "black blocs" com as máscaras negras. E chegou ao ponto também em que o governo está para promulgar uma lei que proíbe as máscaras. Sabe qual foi a reação? Os homossexuais começaram a usar máscaras pink. Foram para os protestos com máscaras cor-de-rosa, máscara homossexual. Então a polícia vai prender? Eles não praticam nenhuma violência, usam máscara agora para afirmar a diversidade sexual.
Isso é para ver como a coisa é complicada. Criou-se uma solidariedade entre os homossexuais e o "black bloc". Então, por vezes, as autoridades se excedem na forma. Eu penso que essa não é a forma. Penso que a forma é de dialogar, de trazer para uma mesa de conversa. Obviamente é uma discussão muito difícil, mas é uma discussão que é preciso ter.

*

BOAVENTURA DE SOUZA SANTOS Sociólogo português, 72 anos

VIDA ACADÊMICA Doutor pela Universidade de Yale (EUA), professor da Universidade de Coimbra (Portugal) e da Universidade de Wisconsin (EUA)

LIVRO RECENTE "Se Deus fosse um ativista dos direitos humanos" (Cortez Editora)

FONTE: FOLHA.COM

20 de out de 2013

Secretaria de Finanças do PSOL apresenta movimentações financeiras dos meses de julho, agosto e setembro

Integra da matéria, acessar : http://www.psol50.org.br/site/noticias/2356/secretaria-de-financas-do-psol-apresenta-movimentacoes-financeiras-dos-meses-de-julho-agosto-e-setembro

Ex-deputados constituintes constroem o PSOL como alternativa de esquerda socialista

Do site do PSOL Nacional, Leonor Costa

Plínio de Arruda Sampaio, Haroldo Saboia e Paulo Ramos participaram, juntos, da elaboração da Constituição Federal de 1988 e foram considerados deputados nota 10 pelo Diap, por votarem em todas as proposições favoráveis aos trabalhadores


Em um momento em que o Brasil saúda os 25 anos da Constituição Federal de 1988, promulgada em 5 de outubro daquele ano, seja ressaltando os avanços nos direitos ou questionando os retrocessos e os limites não superados, a Câmara dos Deputados promoveu nesta quarta-feira (9) uma sessão solene que lembrou aquele momento que pode ser considerado um dos mais marcantes da história recente do país. Na ocasião, foi entregue a Medalha Assembleia Nacional Constituinte a parlamentares e colaboradores que participaram da elaboração da nova Carta. E três militantes que constroem o PSOL como uma alternativa de esquerda desempenharam papel fundamental como deputados constituintes à época e foram lembrados nesta manhã no plenário da Câmara.
Haroldo Sabóia, atual presidente do PSOL do Maranhão, eleito deputado constituinte pelo PMDB no alto de seus 36 anos de idade, lembra da sessão de instalação da Assembleia Nacional Constituinte, em que o seu atual colega de partido, à época deputado pelo PT, Plínio de Arruda Sampaio, apresentou uma questão de ordem para que o processo ocorresse como uma Constituinte exclusiva (uma Assembleia formada por representantes eleitos com a finalidade exclusiva de elaborar a nova Constituição), proposta que contou com o apoio de poucos parlamentares. "Entre eles, além do Plínio, votamos a favor eu e o Paulo Ramos", disse Sabóia, se referindo ao deputado estadual do Rio de Janeiro, Paulo Ramos, um dos deputados constituintes que hoje, junto com ele e Plínio de Arruda Sampaio, milita no PSOL.
O atual presidente do PSOL do Maranhão, economista que teve sua militância marcada na luta pela redemocratização do país e integrou o Comitê de Anistia no Maranhão, considera que, apesar dos limites, aquele foi um momento marcante da história do país, por trazer alguns avanços importantes para os trabalhadores. "Mesmo com todas as tentativas de mutilação da Constituição Federal, o resultado final garantiu conquistas importantes, como a consolidação da democracia, dos direitos humanos e dos trabalhadores. Ainda hoje querem reduzir esses avanços", avalia Saboia.
Com um certo saudosismo, ele cita algumas pautas importantes defendidas por ele e por aqueles que também constroem o PSOL. "Defendemos a jornada semanal de 40 horas. Não conseguimos, pois ela passou das 48 horas para as atuais 44 horas. Mas essa reivindicação já é antiga e nós a defendemos. Batalhamos pela redução da idade da aposentadoria do trabalhador rural, que passou de 65 anos para 60 anos, no caso dos homens, e de 60 anos para 50 anos, no caso das mulheres. Aposentadoria com o salário mínimo integral, que antes era de apenas meio salário mínimo. Quer dizer, isso tudo foram bandeiras que nós defendemos na Assembleia Constituinte", lembra o dirigente do PSOL, que foi deputado federal por três vezes.

"Estamos perdendo a nossa soberania"
O novo filiado ao PSOL, Paulo Ramos, que também esteve ao lado de Plínio e de Saboia entre 1987 e 1988, como deputado da Assembleia Nacional Constituinte, explica que havia uma unidade entre parlamentares do campo progressista, que foi fundamental para garantir a inclusão de direitos importantes no texto final da Constituição vigente. "Eu era da Unidade Progressista, uma ala do PMDB, e atuava com parlamentares de outros partidos, como o Plínio (de Arruda Sampaio), para garantir avanços. Raramente divergíamos e foi essa unidade que conseguiram a conquista de reivindicações históricas", explica Paulo Ramos, eleito deputado constituinte aos 42 anos.
Crítico quanto aos rumos dos direitos previstos na Constituição, ele afirma que a perspectiva de construir um país soberano precisa ser resgatada e disse ver o PSOL como o partido capaz de trilhar esse caminho. "Os direitos conquistados foram na expectativa de transformar o Brasil em um país soberano. Sarney dificultou a regulamentação da Constituição Federal, abusou da edição de Medidas Provisórias e da concessão de canais de rádio e TV para políticos. Fernando Henrique iniciou o processo de privatização, o que infelizmente tem continuidade com Lula e Dilma. Estamos perdendo a nossa soberania", argumentou o deputado estadual do Rio de Janeiro, criticando medidas do atual governo, como o leilão de petróleo do campo de Libra, localizado na Bacia de Campos, marcado para o dia 21 de outubro.
Segundo ele, as mesmas ideias estão no poder desde à época da ditadura e só mudou a forma da repressão. "Estávamos diante da possibilidade de realizar sonhos e alguns até foram realizados, mas a frustração veio depois. Infelizmente, os avanços obtidos naquele processo não foram capazes de superar o modelo ditatorial. Mas a esperança continua e esperamos que as vozes das ruas sejam capazes de promover a mudança que sonhamos".

Deputado nota 10
Eleito com 63.899 votos em 1986, tendo sido o segundo mais votado do PT, Plínio de Arruda Sampaio participou da elaboração da Constituição  Federal de 1988 e ficou conhecido nacionalmente por propor e defender um modelo constitucional de reforma agrária que visava acabar com o latifúndio.
Durante o processo de elaboração da Constituição Federal, Plínio foi membro da Comissão de Redação, da Comissão de Sistematização, da Comissão da Organização do Estado e da Subcomissão de Municípios e Regiões, presidida por ele. Com militância destacada no setor progressista da Igreja Católica, o candidato a presidente da República pelo PSOL em 2010 atuou como membro da Comissão de Acompanhamento da CNBB (Confederação Nacional dos Bispos do Brasil) na Constituinte e foi relator do capítulo do Poder Judiciário.
Plínio também foi considerado deputado nota 10 pelo Diap (Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar), ao lado dos atuais colegas de partido Haroldo Saboia e Paulo Ramos, por votarem em todas as proposições favoráveis aos trabalhadores.
“Sou um militante socialista há 60 anos, desde quando tomei contato com os dominicanos, ainda na juventude. Com muito orgulho, relatei o projeto de reforma agrária do Governo João Goulart – que me rendeu a cassação do mandato em 9 de abril de 1964 e doze anos de exílio. Desde 2005 estou no PSOL colaborando na reconstrução de uma ferramenta dos trabalhadores para a transformação social”, ressalta Plínio.

18 de out de 2013

Governo opera e líderes de partidos na Câmara recuam na suspensão do leilão de Libra

O PSOL é contra o leilão do petróleo do campo de Libra, na Bacia de Santos, entrou com ação na Justiça Federal e apresentou projeto na Câmara para a suspensão do leilão, previsto para o próximo dia 21 de outubro. Na tarde desta terça-feira (15), havia conseguido assinaturas de lideranças partidárias na Câmara dos Deputados suficientes para votação da urgência do projeto que suspende o leilão, que seria votado na tarde de hoje. No entanto, o governo pressionou e fez com que partidos da base retirassem as assinaturas em apoio. Recuaram os líderes Garotinho (PR), André Moura (PSC), Eduardo da Fonte (PP), Mendonça Júnior (PDT), Fernando Francischini (SDD) e Givaldo Carimbão (PROS). O PSOL conta ainda com o apoio do PV, PPS, DEM, PSDB e PSB.
Assinaturas para urgência 
Com o objetivo de barrar o leilão do campo de Libra, previsto para o dia 21 de outubro, na tarde de ontem o líder do PSOL, deputado Ivan Valente (SP), havia conseguido assinaturas suficientes para votação do requerimento de urgência do projeto que susta o leilão. Com isso, a previsão era de que a urgência e o mérito do Projeto de Decreto Legislativo (PDC) 1.289/2013 fossem incluídos na pauta do plenário da Câmara desta quarta-feira (16).
O PDC 1.289, protocolado no dia 18 de setembro, visa sustar as Resoluções nºs 4 e 5, do Conselho Nacional de Política Energética, a Portaria 218, do Ministério de Minas e Energia, e o edital de licitação referente ao campo de Libra. No dia 25, o PSOL protocolou, na Justiça Federal de Brasília, ação popular com pedido de liminar para suspensão do leilão.
Para o PSOL, o leilão configura-se em ato lesivo ao patrimônio público e aos interesses nacionais. O partido argumenta que o texto do edital foi publicado sem o parecer do Tribunal de Contas da União, que tanto o edital como o contrato contêm artigos que favorecem os consórcios em detrimento da União, que não há estudos conclusivos sobre a viabilidade ambiental e que as denúncias da espionagem norte-americana sobre a Petrobras macularam o processo licitatório.
Pela manhã, um seminário que terminou com ato público, promovido por parlamentares e movimentos sociais, cobrou a suspensão do leilão. O deputado Chico Alencar (RJ) disse que a região de Libra é uma área de energia de alto interesse estratégico para o Brasil. “É uma entrega indevida, não se justifica dos pontos de vista técnico, econômico ou da soberania nacional”.
Para o líder Ivan Valente, há um conjunto de irregularidades nesse processo. “Nós não podemos aceitar que o Campo de Libra, uma riqueza no valor mínimo de 1 trilhão de dólares, vá parar na mão de estrangeiros”, afirmou. “Os leilões do petróleo conduzidos atualmente pela ANP (Agência Nacional do Petróleo) representam a continuidade e o aprofundamento da política neoliberal iniciada pelo governo de Fernando Henrique Cardoso, de desnacionalização e quebra do monopólio estatal na extração e comercialização de uma das maiores riquezas estratégicas do país”.

Fonte: Liderança do PSOL na Câmara

13 de out de 2013

China revive autocríticas do período Mao

Suando frio e à beira das lágrimas, um alto dirigente comunista confessa: "Nossos banquetes foram excessivos".
Diante do olhar atento e das anotações do presidente chinês, Xi Jinping, outro camarada segue a mesma linha. "Após minha promoção, eu fiquei arrogante".
A catarse coletiva despejada por dirigentes de Hebei, província no entorno de Pequim, seria mais uma das sessões de autocrítica que são costume no Partido Comunista chinês desde os tempos de Mao Tse-tung.
A diferença é que essas confissões em série não ocorreram, como de hábito, a portas fechadas ou no julgamento de um chefão caído em desgraça. Foram exibidas na TV estatal, em horário nobre.
O show de autocrítica pública, em desuso desde a Revolução Cultural (1966-1976), pegou de surpresa milhões que assistiam ao mais popular noticiário da TV.
Acima de tudo, reforçou o tom austero e o estilo conservador impostos por Xi Jinping desde sua posse, em março.
Na chefia da reunião, Xi acompanhou em silêncio as confissões e acusações entre os dirigentes, sem emoção.
A mais nova fase de sua campanha contra a corrupção e os excessos no PC é um retorno à "linha de massa", doutrina maoista que usava a autocrítica como meio de mobilização coletiva.

FRESTA NA CÚPULA

Diante da indignação popular com a ostentação de alguns membros do partido, Xi decidiu abrir uma fresta na fechada cúpula comunista para melhorar a imagem do governo, desgastada por uma série de escândalos de corrupção e abuso de poder.
"Crítica e autocrítica devem ser colocadas em posição de destaque. Membros do partido precisam aprender a se olhar no espelho", disse o presidente. As sessões em Hebei foram só o começo, anunciou a imprensa oficial.
A "campanha educativa" se espalhará por todo o país e terá como alvo altos dirigentes, segundo a agência estatal Xinhua, com o objetivo de "limpar estilos de trabalho indesejáveis, como formalismo, burocracia, hedonismo e extravagância".
Nos últimos meses, a cruzada de Xi contra os excessos cortou os banquetes oficiais a "quatro pratos e uma sopa", secou brindes com a caríssima aguardente Maotai e vetou até o "bolo da lua", presente tradicional no recente feriadão de outono.
Para analistas, a campanha vai muito além de um esforço de relações públicas.
Trata-se de uma escalada arquitetada por Xi para fortalecer sua autoridade antes do esperado Terceiro Plenário do Comitê Central do PC, em novembro, quando serão definidas as reformas econômicas prometidas pelo governo.
Capitaneadas pelo premiê Li Keqiang, as medidas seriam o início da terceira fase da abertura da economia chinesa às forças de mercado, lançada em 1978.
Há quem fareje no ranço maoista das medidas de Xi um sinal de que não há nenhuma intenção de estender para a política as mudanças na economia.
"A política chinesa é uma caixa-preta, mas não vejo chances de reforma política", disse à Folha o cientista político Wu Qiang, da Universidade Tsinghua. "Quanto mais Li avançar na reforma econômica, mais conservador Xi será na política",
Nos relatos da imprensa estatal, as sessões de autocrítica descrevem um clima tenso, com os dirigentes tentando agradar o presidente. "Eu suava, e várias vezes quase caí em prantos", disse um deles após confessar que abusou dos carrões oficiais.
"Quando eu me tornei secretário do partido, me deram um utilitário esportivo. Eu sabia que era excessivo, mas eu adorava dirigir aquele carro", confessou Sun Ruibin, chefe do PC de Shijiazhuang, capital de Hebei.

EXPIAÇÃO

A expiação pública segue um método usado por Mao para atacar rivais e promover expurgos no partido.
Dos primórdios da República Popular, nos anos 1950, à Revolução Cultural, milhões obedeceram à convocação de denunciar burocratas e revisionistas.
Mas, com a vertiginosa transformação do país em quase quatro décadas de avanço econômico, a aplicação dos mesmos métodos é vista com intenso ceticismo.
Campanhas como essa são feitas para abalar a confiança de altos dirigentes e forçá-los a demonstrar lealdade ao líder, afirmou o analista político Zhang Lifan ao jornal "South China Morning Post", de Hong Kong.
"Só que é impossível para Xi ter a mesma autoridade que tinha Mao", afirma. "Isso está fora de época. Na atual era da informação, o impacto será limitado".

Lan Hongguang/Xinhua


 

11 de out de 2013

Uma criança morre de fome a cada dez segundos?

O uso de um chamativo slogan em uma campanha de ONGs na Grã-Bretanha para destacar a gravidade da situação vivida por crianças com desnutrição ─ o de que uma criança morre de fome a cada dez segundos ─ gerou críticas por parte do próprio Programa de Alimentação da ONU (WFP, na sigla em inglês).
O slogan foi adotado pela campanha Enough Food for Everyone If no dia 6 de junho, atualizando outro que vinha sendo usado, o de uma morte a cada 15 segundos. A campanha visa pressionar os líderes do G8, que estão reunidos na Irlanda do Norte, a adotar medidas para combater o problema.
A organização diz que o slogan ajuda as pessoas entenderem o problema e o "humanizam". Por sua vez, o WFP, órgão que procura justamente combater a fome no mundo, argumenta que os números podem ser enganadores e podem causar confusão.
Mas qual é a verdade por trás do slogan? E será que o debate se justifica?

Frase 'acessível'

Estatísticas a respeito de mortes causadas pela fome em curtos períodos de tempo são usadas há anos.
Esta última é baseada em uma fonte de respeito, a publicação científica The Lancet, um veículo de fama internacional que, recentemente, publicou um relatório afirmando que mais de 3 milhões de crianças morreram de subnutrição em 2011.
Para conseguir a estatística para o slogan, os responsáveis pela campanha da If dividiram o número de segundos em um ano inteiro pelo total de mortes, três milhões.
E, de acordo com o porta-voz da campanha, Jack Lundie, esta operação aproxima mais as pessoas da questão."Números grandes são difíceis de visualizar, especialmente quando você fala de milhões", afirma.
"Também queremos nos concentrar no indivíduo, e estas expressões ajudam a humanizar o problema."
"Então precisamos de uma frase curta, acessível que, em um período curto de tempo vai transmitir o impacto emocional do problema que estamos tratando, mas também dará um sentido de proporção e urgência que vai precipitar algum tipo de ação", acrescentou.

Mudança de rumo

Para o WFP, por outro lado, "existe uma tentação real de usar este tipo de estatística pois elas realmente conseguem chegar às manchetes, você não pode ignorar isto pois é uma imagem horrível", disse Jane Howard, representante do WFP.
Mas, de acordo com ela, estes números são um pouco "enganadores".
O próprio WFP costumava alegar que uma crianças morria de fome a cada seis segundos, mas parou de usar esta frase por volta de 2008.
Os números podem mudar de ano para ano, de acordo com Howard, tudo depende da pesquisa mais recente, e "fica muito confuso, pois os números antigos acabam ficando na internet".
E, mais importante, de acordo com a representante do WFP, "a ciência está dizendo algo muito diferente, na verdade".
"Com certeza existem circunstâncias extremas, nas quais crianças morrem de fome, e lembro da fome recente em algumas partes da Somália. Mas a verdade é que a grande maioria daqueles números sobre os quuais estamos falando se referem a crianças que, por não terem tido a nutrição correta no começo da vida, são muito, muito suscetíveis a doenças infecciosas, como sarampo", afirmou Howard.
"Uma criança que teve uma boa nutrição simplesmente vai superar (as doenças), mas, no caso de uma criança muito frágil e com um sistema imunológico comprometido, (a doença) ameaçará sua vida", acrescentou.
E o fato de uma nutrição deficiente ser identificada como causa subjacente de morte significa que também há uma contagem dupla. Quando se ouve que uma criança morre a cada poucos segundos devido a doenças relacionadas à água não tratada ou devido à pobreza, por exemplo, algumas destas crianças vão ser as mesmas que estariam morrendo a cada poucos segundos de fome.

Complexidade

A maioria das mortes relacionadas a problemas de nutrição ocorrem em países que não estão sofrendo com conflitos ou fome, segundo o professor Robert Black, da Escola de Saúde Pública Johns Hopkins Bloomberg, nos Estados Unidos.
"Estes não são os países mais pobres do mundo. São países como a Índia ou a Nigéria ou muitos outros países na Ásia ou África que realmente poderiam se sair melhor, que têm os recursos para alimentar as crianças", afirmou.
"Certamente os mais pobres têm os maiores problemas com subnutrição, mas mesmo assim há comida o suficiente para alimentar as crianças. A dificuldade é alcançar uma dieta de qualidade, uma dieta que é dominada por cereais ou amido não será uma dieta com a qualidade necessária para os dois primeiros anos de vida", disse.
Foi Black que calculou que 3 milhões de crianças morreram em decorrência da subnutrição em 2011, divulgando o número na The Lancet. Ele afirma que, na maioria dos casos, o problema pode ser resolvido por meio da educação..
Por exemplo, ele explica que um quarto das mortes pode ser atribuido a uma amamentação não adequada, com muitas famílias não percebendo que até os seis meses de idade os bebês precisam exclusivamente de leite materno, e esta alimentação os protege de comida contaminada.
Então, tudo indica que os fatos são mais complicados do que o slogan. Mas, de acordo com Jack Lundie, porta-voz da If, é preciso simplificar para conseguir a atenção das pessoas.
Lundie admite que pode ser que as pessoas não consigam toda a informação sobre o problema com o slogan mais chamativo das mortes em poucos segundos, mas ele não acredita que "seria realista" esperar algo assim apenas com um slogan.
"Em termos que criar uma conversa na qual as pessoas podem ser informadas, você primeiro precisa conseguir a atenção delas, a atenção emocional. As pessoas são muito ocupadas então você precisa uma compreensão instantânea para iniciar uma conversa", disse.
A subnutrição é um problema grave, e as 3 milhões de crianças que teriam morrido por esta causa em 2011 representam quase metade de todas as mortes infantis. Mas há sinais de avanços.
"Há uma queda no número excessivo de mortes, não muito grande, mas é um avanço desde a última vez que estudamos isto (em 2008), e a atenção dada a estas questões de nutrição em países de baixa renda e de renda média, realmente aumentou muito nos últimos cinco anos", disse Black.

FONTE: BBC BRASIL
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7 de out de 2013

30% dos cursos tiveram desempenho insatisfatório no Enade, diz MEC

Cerca de 30% dos cursos avaliados pelo Ministério da Educação receberam nota insatisfatória no Enade, avaliação federal do ensino superior.
Em 2012, a pasta avaliou 7.228 cursos de 1.646 instituições de ensino superior. Eles foram reunidos numa base de cálculo de 6.306 unidades - cursos de uma mesma instituição realizados num mesmo município são agrupados. Ao todo, 536 mil estudantes, do último e penúltimo semestre da graduação, fizeram a prova.
O exame é aplicado para um mesmo grupo de cursos a cada três anos - os dez cursos de bacharelado e seis tecnológicos que participaram do Enade em 2012 também foram avaliadas em 2009. Entre elas, por exemplo, estão direito, administração, relações internacionais, psicologia e comunicação social. O nome das instituições avaliadas só será divulgado na tarde de hoje.
No ano passado, 30% dos estudantes dos cursos tiveram nota 1 ou 2 no Enade, considerada insatisfatória. Outros 68,3% receberam índices 3, 4 ou 5 e apenas 1,8% não receberam conceito (casos em que o curso não tem concluintes).

COMPARAÇÕES

Em 2009, quando esses mesmos cursos foram avaliados, o percentual de cursos com nota insatisfatória no Enade foi de 24,9%. Apesar de o índice ser menor do que o verificado no ano passado, o ministro Aloizio Mercadante (Educação) argumentou que houve melhora nesse período.
Isso porque naquele ano 26,6% dos cursos não tiveram nota no Enade - em 2012 esse índice foi de apenas 1,8%." As notas 4 e 5, que são de excelência, tiveram crescimento importante", ponderou Mercadante em coletiva de imprensa.
Ao comparar o desempenho no Enade de públicas e privadas, as primeiras mantêm melhor resultado. "As públicas continuam, no ensino superior, bem melhor do que as privadas", disse o ministro. Enquanto 17% dos cursos de instituições públicas receberam a nota máxima no Enade, entre as privadas esse percentual foi de 3,5%.

CPC

O desempenho dos estudantes no Enade tem peso importante na formação do CPC (Conceito Preliminar de Curso), índice que representa a qualidade dos cursos e que leva em consideração, além do exame, fatores como titulação do corpo docente e infraestrutura da instituição.
É com base no CPC - que também tem gradações entre 1 e 5 - que os cursos com qualidade ruim são punidos, impedidos de abrir novas vagas em vestibular. No ano passado, 207 cursos foram impedidos de ofertar vaga em processo de seleção.
A expectativa é que o CPC de cursos avaliados em 2012 seja divulgado em novembro - 70% do índice vêm dos resultados do Enade.
No próximo mês, alunos de cursos da área de saúde - como medicina, farmácia e educação física - farão o Enade. Neste ano, os alunos não poderão apenas assinar a prova e entregá-la em seguida. Portaria da prova de 2013 afirma que o aluno deve ficar pelo menos 1h na sala de aula, caso contrário não será considerada sua participação.
Participar do Enade é obrigatório para os alunos concluintes - sem ele, o diploma não é entregue.
"Cada vez mais o mercado de trabalho olha o desempenho do Enade. O empenho deles em fazer um bom Enade ajudará a valorizar seu currículo, seu diploma e sua carreira profissional", defendeu Mercadante.

FONTE; FOLHA.COM

Minuto do celular no Brasil é o mais caro do mundo

O custo da chamada de celular no Brasil é o mais caro do mundo, segundo relatório divulgado nesta segunda-feira (7) pela ITU (União Internacional de Telecomunicações), da ONU.
O minuto da ligação entre uma mesma operadora fora do horário de pico custa US$ 0,71 no país. Entre operadoras diferentes, a tarifa sobe para US$ 0,74.
No caso das chamadas feitas por números da mesma operadora, a tarifa mais baixa encontrada foi de US$ 0,01 o minuto, em Hong Kong e na Índia. Nos Estados Unidos, por exemplo, o custo é de US$ 0,27.
A tarifa no Brasil é mais que o dobro de outros países da América Latina, como Argentina e México, onde o minuto, em ambos, custa US$ 0,32.
Em relação às ligações feitas entre operadoras diferentes, a menor tarifa encontrada foi de US$ 0,01, em Hong Kong. A segunda menor é de US$ 0,02, da Índia. Também considerando as chamadas feitas fora do horário de pico.
O levantamento considerou 161 países e, no Brasil, utilizou as tarifas médias praticadas em São Paulo.

INFRAESTRUTURA

Os fatores que ajudam a explicar os altos custos da telefonia no Brasil, conforme explica Marcelo Knörich Zuffo, professor da Escola Politécnica da USP, são, basicamente, três: baixo investimento em infraestrutura, alta demanda e alta incidência tributária.
"Isso é uma tendência que vai ser muito difícil de se reverter nos próximos anos", avalia.
O estudo ainda mostrou que, assim como o Brasil, países desenvolvidos, como Suíça e França, possuem altos custos de chamadas móveis. Por lá, no entanto, a realidade é outra.
"Nesses países também há alta incidência tributária, mas a qualidade dos serviços é outra", diz Zuffo.
"Não é possível comparar esses países com o Brasil em termos de infraestrutura. Em alguns horários na cidade de São Paulo você simplesmente não consegue fazer uma ligação."

FONTE: FOLHA.COM