13 de out de 2013

China revive autocríticas do período Mao

Suando frio e à beira das lágrimas, um alto dirigente comunista confessa: "Nossos banquetes foram excessivos".
Diante do olhar atento e das anotações do presidente chinês, Xi Jinping, outro camarada segue a mesma linha. "Após minha promoção, eu fiquei arrogante".
A catarse coletiva despejada por dirigentes de Hebei, província no entorno de Pequim, seria mais uma das sessões de autocrítica que são costume no Partido Comunista chinês desde os tempos de Mao Tse-tung.
A diferença é que essas confissões em série não ocorreram, como de hábito, a portas fechadas ou no julgamento de um chefão caído em desgraça. Foram exibidas na TV estatal, em horário nobre.
O show de autocrítica pública, em desuso desde a Revolução Cultural (1966-1976), pegou de surpresa milhões que assistiam ao mais popular noticiário da TV.
Acima de tudo, reforçou o tom austero e o estilo conservador impostos por Xi Jinping desde sua posse, em março.
Na chefia da reunião, Xi acompanhou em silêncio as confissões e acusações entre os dirigentes, sem emoção.
A mais nova fase de sua campanha contra a corrupção e os excessos no PC é um retorno à "linha de massa", doutrina maoista que usava a autocrítica como meio de mobilização coletiva.

FRESTA NA CÚPULA

Diante da indignação popular com a ostentação de alguns membros do partido, Xi decidiu abrir uma fresta na fechada cúpula comunista para melhorar a imagem do governo, desgastada por uma série de escândalos de corrupção e abuso de poder.
"Crítica e autocrítica devem ser colocadas em posição de destaque. Membros do partido precisam aprender a se olhar no espelho", disse o presidente. As sessões em Hebei foram só o começo, anunciou a imprensa oficial.
A "campanha educativa" se espalhará por todo o país e terá como alvo altos dirigentes, segundo a agência estatal Xinhua, com o objetivo de "limpar estilos de trabalho indesejáveis, como formalismo, burocracia, hedonismo e extravagância".
Nos últimos meses, a cruzada de Xi contra os excessos cortou os banquetes oficiais a "quatro pratos e uma sopa", secou brindes com a caríssima aguardente Maotai e vetou até o "bolo da lua", presente tradicional no recente feriadão de outono.
Para analistas, a campanha vai muito além de um esforço de relações públicas.
Trata-se de uma escalada arquitetada por Xi para fortalecer sua autoridade antes do esperado Terceiro Plenário do Comitê Central do PC, em novembro, quando serão definidas as reformas econômicas prometidas pelo governo.
Capitaneadas pelo premiê Li Keqiang, as medidas seriam o início da terceira fase da abertura da economia chinesa às forças de mercado, lançada em 1978.
Há quem fareje no ranço maoista das medidas de Xi um sinal de que não há nenhuma intenção de estender para a política as mudanças na economia.
"A política chinesa é uma caixa-preta, mas não vejo chances de reforma política", disse à Folha o cientista político Wu Qiang, da Universidade Tsinghua. "Quanto mais Li avançar na reforma econômica, mais conservador Xi será na política",
Nos relatos da imprensa estatal, as sessões de autocrítica descrevem um clima tenso, com os dirigentes tentando agradar o presidente. "Eu suava, e várias vezes quase caí em prantos", disse um deles após confessar que abusou dos carrões oficiais.
"Quando eu me tornei secretário do partido, me deram um utilitário esportivo. Eu sabia que era excessivo, mas eu adorava dirigir aquele carro", confessou Sun Ruibin, chefe do PC de Shijiazhuang, capital de Hebei.

EXPIAÇÃO

A expiação pública segue um método usado por Mao para atacar rivais e promover expurgos no partido.
Dos primórdios da República Popular, nos anos 1950, à Revolução Cultural, milhões obedeceram à convocação de denunciar burocratas e revisionistas.
Mas, com a vertiginosa transformação do país em quase quatro décadas de avanço econômico, a aplicação dos mesmos métodos é vista com intenso ceticismo.
Campanhas como essa são feitas para abalar a confiança de altos dirigentes e forçá-los a demonstrar lealdade ao líder, afirmou o analista político Zhang Lifan ao jornal "South China Morning Post", de Hong Kong.
"Só que é impossível para Xi ter a mesma autoridade que tinha Mao", afirma. "Isso está fora de época. Na atual era da informação, o impacto será limitado".

Lan Hongguang/Xinhua


 

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