14 de mar de 2011

Círculo Palmarino: 5 anos de luta, 500 anos de resistência!.



*Fábio Nogueira – Coordenação Nacional do Círculo Palmarino

Como fazemos questão de reafirmar, este cinco anos de experiência seriam impossíveis sem a resistência secular de nosso povo que perdura por mais de 500 anos. Nada mais somos que uma trincheira a mais na larga tradição de luta do povo “amefricano” (reportando-nos à Lélia Gonzalez). Evidentemente, nossas diferenças com as demais entidades do movimento negro são significativas. Defendemos a luta contra o racismo em sua interface com a luta contra o modo de produção capitalista e sua essência produtora e reprodutora de riqueza e desigualdade. Em um momento de forte acomodação do movimento negro, em que a sedução pela luta de “bastidores” e no recôndito dos palácios encarpetados – sejam os de Brasília ou dos States – o Círculo Palmarino insiste em andar na contramão, de dizer o que ninguém tem coragem de dizer, em ser do contra.
Fazemos isso convictos da necessidade da crítica e da prática militantes, com o objetivo de fazer crer às lideranças negras e ao movimento que o nosso lugar é na rua, junto com a classe trabalhadora e todos os que dependem do próprio trabalho para sobreviver. No entanto, temos orgulho de fazê-lo de forma fraterna, solidária e combativa com os demais segmentos da comunidade negra que – no passado e ainda no presente – são indispensáveis à construção de uma sociedade verdadeiramente democrática (o que, em nosso ponto de vista, só será possível com a superação da ordem e das instituições que representam a burguesia). A unidade de ação do movimento negro contra a burguesia e a direita conservadora sempre foi uma bandeira do Círculo Palmarino, ainda que reconhecendo que existam diferenças substantivas quanto a forma como conduzi-la.
Ainda, deste contato com outras entidades e lideranças do movimento negro, aprendemos a ser críticos a maneira como um setor da esquerda brasileira – de matriz eurocêntrica – vê com desprezo e ceticismo à forma como africanos escravizados e povos originários resistiram à opressão. Em suma, o movimento negro ensina que os nossos ancestrais foram escravizados sem deixarem de ser, em seu modo de ver, sentir e interpretar o mundo, africanos.
A forma africana ou afroamericana de fazer política é muito distinta da Européia. Não há lei histórica, determinismo ou fatalismo pseudo-intelectual capaz de borrar o sentido negro-africano (afroamericano) das lutas negras, durante a colônia e sob o escravismo, e que se reinventaram na sociedade de classes burguesa (os candomblés e as escolas de samba são os maiores exemplos disso). Neste processo dialógico aprendemos com as demais entidades do movimento negro e somos solidários a elas sem jamais abandonar o território da crítica e da contradição.
Hoje, o Círculo Palmarino aposta no trabalho cultural na periferia (seja através dos saraus, cines, blocos de carnaval e escolas de samba), na formação permanente de seus quadros e militantes, na aliança com movimento sindical e popular combativo, partidos políticos e intelectuais do campo de esquerda. A nossa prioridade é, hoje, investir na unificação de forças do movimento negro – em torno de pautas comuns de luta – e na denuncia ao processo de faxina étnica.
Por coerência, somos oposição ao governo Dilma, aos demo-tucanos e a direita conservadora. Reafirmamos a nossa independência em relação a governos e partidos políticos sem deixar de ter lado, de assumir que somos de esquerda e socialistas. Em suma, não somos “apolíticos” porque não acreditamos que seja possível lutar contra o racismo e a opressão sem construir um projeto novo de sociedade. Não nos acomodamos a esta ordem, lutamos contra ela por todos os meios que forem necessários (Malcom X). Desta maneira, nos orgulhamos da politicamente vitoriosa candidatura do palmarino Hamilton Assis, à vice-presidente da República, na chapa encabeçada por Plínio de Arruda Sampaio, do PSOL, nas eleições passadas. A candidatura de Plínio e Hamilton “desracializou” a política brasileira e teve coragem para tocar no tema do racismo (assunto que não mereceu a atenção dos demais candidatos na eleição presidencial).
Por fim, o Círculo Palmarino completa 5 anos no mesmo dia em que se realizam duas atividades importantes. No Espírito Santo, o movimento negro capixaba se reúne em assembléia junto a representantes das principais entidades do movimento negro (Conen, Unegro, Fejunes, Círculo Palmarino) para debater o seu futuro e propor ações em relação ao novo governo eleito daquele estado. A frente deste processo temos o companheiro Gilbertinho, sempre dedicando suas melhores energias à luta contra o racismo. Em São Paulo, capitaneado pela palmarina Luciete, teremos mais uma sessão do Cine Palmarino, que projetará o filme “Cidade das Mulheres” com o objetivo de refletir sobre a importância da mulher negra e de nossa ancestralidade.
Para nós estas duas atividades se complementam e sintetizam bem a luta do Círculo Palmarino. Construir a unidade do movimento negro é um passo determinante para superarmos o atual nível de consciência da luta antiracista em nosso país e catapultá-la para um patamar superior que dialogue com as ricas experiências construídas por afros e povos originários na Bolívia, Venezuela e Equador. É necessário construir um “dique utópico” no interior do movimento negro brasileiro que seja um contraponto as investidas conservadoras da afro-direita monitorada pelo Departamento do Estado Norte-Americano, o Banco Mundial e o FMI. Por isso, é necessário realizarmos, em 2011, ano consagrado pela Unesco aos Afrodescendentes, no Brasil, o Fórum Social Afrodescendente.
Por outro lado, o Cine Palmarino, o Sarau, o Ponto de Cultura, os blocos e escolas de samba são espaços onde construímos, no plano simbólico, nossa visão alternativa de mundo que nos mobiliza, como guerreiros e guerreiras culturais, contra os valores individualistas da ordem competitiva e egoísta burguesa. Solidariedade, companheirismo, sentido de pertencimento, respeito, reciprocidade e vida comunitária são valores contra hegemônicos que devemos viver e exercitar, de forma permanente, em nossos espaços de ação.
Com base nestes princípios, a nossa combativa militância palmarina veio – com o espírito altivo – para ocupar um espaço definitivo no seio da comunidade negra e conquistar – senão as mentes – pelo menos os corações destes quilombolas, guerreiros e guerreiras do movimento negro, com os quais compartilhamos as trincheiras nos últimos cinco anos.

Ashé e luta!
Viva o povo negro!
Vivo o Círculo Palmarino!
5 anos de luta, 500 anos de resistência!

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