5 de mai de 2012

Cursos sem professores na UFJF

Durante dois meses, alunos do IAD tiveram aulas apenas uma vez por semana; Associação dos Professores afirma que situação acontece na maior parte das faculdades

Enquanto o crescimento estrutural da UFJF acontece a olhos vistos, com construções sendo erguidas por todo o campus, dentro das salas de aulas, os investimentos em recursos humanos previstos pelo Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni) ainda parecem lentos e em desacordo com a proposta de "ampliação com qualidade" da instituição. No Instituto de Artes e Design (IAD), por exemplo, estudantes ficaram dois meses sem aulas devido à falta de docentes. Dos 241 professores de dedicação exclusiva que deveriam ser contratados entre 2008 e 2012, apenas 156 foram admitidos como efetivos. Os 85 restantes são temporários. Embora considere o problema do IAD "localizado", o pró-reitor de Graduação, Eduardo Magrone, teme que a precarização do trabalho docente se estenda e, a longo prazo, reflita na qualidade do ensino. Já a Associação dos Professores de Ensino Superior de Juiz de Fora (Apes) afirma que a situação se repete indiscriminadamente na maior parte das faculdades.
No IAD - uma das unidades-base do recém-implantado modelo de bacharelado interdisciplinar (BI) e na qual estão concentrados seis novos cursos criados pelo Reuni -, disciplinas obrigatórias começaram a ser ministradas na última quarta-feira. Com o fim do período marcado para 10 de julho, os novos docentes da unidade terão cerca de 60 dias para ministrar o programa do semestre. "Tenho certeza de que o conteúdo será prejudicado, porque mesmo que haja reposição, não vou aprender o tanto que deveria e nem tão bem, pois não tem como passar a mesma matéria em dois meses. Que tipo de profissional é formado por um curso assim?", questiona uma estudante da primeira turma de moda (opção do segundo ciclo do BI em artes e design), que prefere não ser identificada. Ela conta que, até semana passada, tinha aulas apenas às terças-feiras, quando a grade de créditos previa atividades todos os dias da semana. "Estou matriculada em todas as disciplinas, mas não tinha professor. É uma falta de respeito com o aluno."
No curso de música, também instalado no IAD, o problema se arrasta por mais tempo. Depois de seis meses sem professor de flauta, uma aluna do 7° período da habilitação no instrumento optou por cursar o semestre em uma universidade do Rio de Janeiro, para não atrasar a formatura. "Tem matérias que não são oferecidas porque não tem professor." Outro aluno do curso, que forma a primeira turma no final do ano, afirma que disciplinas obrigatórias foram transformadas em eletivas ou optativas, devido à falta de docentes qualificados. "Introdução à regência, por exemplo, que seria importante para a formação do músico, virou eletiva. Me sinto lesado", reclama. "Não temos retorno nenhum da universidade. O professor de flauta pediu demissão no início do semestre passado e só abriram novo concurso em abril deste ano, quando o período já havia começado."

Contratos precários
Magrone pondera que casos como o do IAD fazem parte da rotina da universidade, já que, eventualmente, um ou outro departamento fica sobrecarregado pela oferta de disciplinas. "Ter uma turma sem aulas é muito preocupante, mas com a questão identificada e solucionada a tempo, não traz prejuízos maiores. O problema mais grave é a contratação de temporários, porque não sei quando poderei contar com professores efetivos", destaca. "Esses contratos atuais podem ser encerrados a qualquer momento, então ficamos sempre em movimento para suprir uma vaga incerta. Caso essa situação de precarização do trabalho docente se estenda por mais tempo e implique sempre em perdas de aulas ou cursos mal ministrados, o resultado poderá ser observado no Enade (Exame Nacional de Desempenho de Estudantes), que refletirá a baixa qualidade do ensino."
Para o diretor da Apes, Rubens Rodrigues, "é necessário ampliar o número de professores da universidade em proporção compatível com o número de vagas, de modo a garantir a qualidade da educação." Porém, segundo o professor, as formas precárias de trabalho docente "têm sido adotadas de forma generalizada, ainda que a universidade tenha sido expandida e que isso requeira maior número de professores."

Contratação de efetivos suspensa

A contratação de parte dos professores efetivos previstos nas diretrizes para implantação do Reuni na UFJF, aprovadas em 2007, foi impedida, no ano passado, pela Portaria 39/2011, que suspendeu, por tempo indeterminado, a autorização para provimento de cargos federais. Assim, os 85 docentes chamados desde então foram admitidos como temporários, com contratos precários.
"Entendemos que a medida de contenção no início do Governo Dilma fosse necessária, mas é preciso que seja circunstancial. O que me causa preocupação é que, a médio e longo prazo, é difícil manter a qualidade dos cursos com contratos precários, principalmente em uma universidade que precisa consolidar os programas de pós-graduação", lamenta o pró-reitor de Graduação, Eduardo Magrone.
Hoje, o quadro docente da UFJF conta com 1.037 professores efetivos e 130 temporários, 84 a mais do que o projetado nas diretrizes do Reuni. Ainda assim, Magrone questiona o regime de contratação. "Não adianta termos infraestrutura robusta se não temos professores. É muito difícil empreender projetos pedagógicos para cursos novos com corpo de professores temporários. E esses servidores não contribuem com a pós-graduação, não participam das decisões do colegiado, não podem coordenar cursos e chefiar departamentos, o que sobrecarrega os efetivos."
No IAD, são 41 docentes efetivos e seis temporários, dois dos quais contratados em abril, segundo a Secretaria de Comunicação da UFJF. A assessoria da universidade alega que a demora na contratação dos novos servidores ocorreu devido à dificuldade de atendimento às exigências do edital e à interposição de recursos. O diretor do instituto, Ricardo Cristófaro, acrescenta que a liberação de vagas pelo Governo federal ocorreu muito perto do início das aulas, fazendo com que o processo de contratação tramitasse junto com o semestre letivo. Ele afirma que as aulas serão integralmente repostas. "Só 50% do semestre foram vencidos, então há tempo suficiente para repor conteúdo sem prejuízos." Quanto ao curso de música, Cristófaro diz que as alterações na grade curricular foram realizadas para aperfeiçoamento, não tendo relação com falta de professores.

FONTE: Mariana Nicodemus

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