10 de mar de 2010

O vírus da apatia .

É intrigante: conquistada a democracia, ainda que em transição pactuada com a ditadura civil-militar de 64/84, afinal tivemos a eleição de um sociólogo e de um metalúrgico oriundos da resistência ao regime, filiados a partidos de ideário social-democrata e socialista. Mas, na última década e meia desses governos, cresceram a despolitização e a desorganização da sociedade como um todo, e dos trabalhadores em particular. Pesquisa realizada pelo Ipsos Public Affairs em nove regiões metropolitanas, concluída em janeiro de 2010, mostra que apenas três de cada dez brasileiros conseguem identificar corretamente o nome de um ministro, um senador ou um deputado federal. A acomodação das organizações políticas e de seus líderes ao alheamento político das massas foi crescente e... interessada.
Apesar disso, "la nave va", pois as forças dominantes na economia, na política e na produção do imaginário social nacional não necessitaram, até o momento, de uma repaginação da estrutura partidária. As práticas patrimonialistas, mesclando autoritarismo, demagogia e clientelismo, e imbricando interesses privados e públicos, seguem sustentando governos e viabilizando vitórias eleitorais. Todos, "modernos" e "atrasados", num assemelhamento crescente das legendas, navegam nas águas aparentemente tranquilas da economia. Sempre se dizendo "progressistas", controlam a vida pública brasileira, animando a "platéia" com uma polarização de fantasia nas disputas eleitorais. A anemia da cidadania crítica facilita a afirmação de personalismos e da "cultura do favor", terreno fértil para essas deformações.
Todos os grandes partidos brasileiros - e a maioria dos pequenos - são sócios nada honorários do clube da degradação política nacional, da qual o escândalo mais recente, do escabroso "mensalão" do DEM, é emblema documentado.
Esse modelo político formalmente representativo, apesar do descrédito popular (que produz mais apatia que ativismo crítico), parece intocável. Tanto FHC quanto Lula, ao longo dos últimos 15 anos, proclamaram a urgência da "mãe de todas as reformas", a política. Mas as bases de sustentação de seus governos rejeitaram essas conclamações retóricas da "vanguarda do atraso". Não se muda o que tem assegurado vitórias e "governabilidade". O Legislativo tem pouca autonomia: o Executivo continua "domesticando" a maioria dos Parlamentos, usando métodos legais e, por vezes, ilegais.
Os partidos e a própria política, no sentido lato, tornaram-se fins em si mesmos, com interesses específicos, corporativos, na defesa monolítica e monocórdia do "caminho único". Procedimentos predadores e egoístas são naturalizados.
Fora dessa rede apodrecida vigora uma espécie de neoconformismo esclarecido: "não há outro jeito de se fazer política no Brasil", reza o senso comum distópico. Mas ainda há quem aposte em participação, formulação de programas e mobilização em torno de ideais e causas. Nem tudo está perdido.

Chivo Alencar é professor e deputado federal (PSol-RJ)

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