15 de ago de 2010

Entrevista de Hamilton Assis à Afropress candidato a vice-presidente do PSOL.

Leia abaixo a íntegra da entrevista concedida pelo candidato a vice-presidente da República pelo PSOL, Hamilton Assis, ao editor do site Afropress,jornalista Dojival Vieira.

Afropress - Desde o fim da ditadura e a realização de eleições diretas para Presidente, em 1.989, tem sido pequena, quase insignificante, aparticipação de negros em chapas majoritárias, em especial nas disputas à Presidência da República. Como o senhor vê o seu papel na condição de candidato a vice do PSOL?
Hamilton Assis - Meu papel, de certa forma, é tirar a invisibilidade, retirar a questão racial do papel coadjuvante. Representamos uma opção pelaigualdade, para que a presença dos setores majoritários da população passe a ter visibilidade maior.
A gente está acostumado a ver os outros falarem dos nossos problemas e apresentarem soluções para os nossos problemas. Nós, do PSOL, nãoacreditamos que haja possibilidade de transformações radicais sem que a população negra se veja refletida nesse processo de disputas. O programatem de ter a nossa cara, as nossas soluções.

Afropress - E qual é a nossa cara nessas eleições para Presidência da República?
Hamilton - Quando você fala de luta, de enfrentamento de classe não se pode ignorar a contribuição indígena e do povo negro. A luta começou com aresistência indígena que já tem mais de 500 anos. Ela não começa com o modelo eurocêntrico. A revolta dos Aimorés, dos Búzios, dos Alfaiates,Cabanagem, a Farroupilha, no Rio Grande. A história do nosso povo é uma história de lutas, de enfrentamentos. Ignorar isso é fazer um erro de leitura. O modelo ocidental eurocêntrico, não se espelha a realidade. É preciso considerar as lutas de resistência.

Afropress - E o que aconteceu com o PT e com a esquerda no Brasil?
Hamilton - Eles caíram no canto da sereia do fim da históira. A história é uma dinâmica permanente e se nutre das contradições. O capital enquantomodelo civilizatório não dá contra da inclusão de 30 milhões de miseráveis.
Os partidos que historicamente se diziam de esquerda no Brasil, acabaram por invisibilizar esses segmentos e acabaram por formular um projeto paraeles. Uma crítica que temos feito a certas posições de esquerda, é que em seu programa, em sua política, acabaram nos jogando para um gueto. É oque acontece, no exemplo da SEPPIR, em outros espaços nos Governos ditos democráticos. É como uma Ferrari sem gasolina.

Afropress - E qual a proposta do PSOL e como será a sua intervenção como vice-presidente? Qual o papel do Movimento Negro nesse contexto?
Hamilton - Não basta apenas ter um vice na Presidência. A população negra, o Movimento Negro precisa se apresentar com um programa para o Brasil do ponto de vista do povo negro. Isso prá mim é que é participar, exercer poder governar. Vamos buscar isso no Partido. O que queremos é construiresse protagonismo para que se dê visibilidade a nossa questão.
Precisamos de um Movimento democrático, pluriétnico na prática, para escrevermos uma página nova na História. É preciso topar esse desafio, e fazeresse diálogo, mesmo entre aqueles que se reivindicam mais revolucionários do que os outros.

Afropress - O candidato a Presidente Plínio de Arruda Sampaio tem sensibilidade no trato dessas questões que o senhor levanta?
Hamilton - O Plínio tem uma trajetória irretocável. É um companheiro que foi precursor dos principais programas de reforma agrária, que sempre teveuma conduta que o eleva à condição de reserva moral e ética na política brasileira. Nós somos uma alternativa diferente. Os outros não estãointeressados em dar visibilidade a isso.

Afropress - Quais são as diferenças fundamentais entre Serra, Dilma e Marina, em relação a proposta que o PSOL e o senhor e Plínio representam?
Hamilton - O que Serra, Dilma e Marina apresentam são a continuidade de uma mesma política dentro de sua lógica. Não há espaço nessa lógica parao protagonismo de negros e mulheres. Na sua lógica não há propostas nem solução para a escola pública destruída, a saúde que não consegueoferecer condições de acesso. São propostas que reproduzem a desigualdade.

Afropress - E Lula qual o papel nessa disputa e como avalia o Governo?
Hamilton - O que Lula não diz é que aumentou a concentração de renda no país nos últimos oito anos, uma profunda concentração de renda, seja nacidade, seja no campo. Os projetos do Governo Lula criaram a infra-estrutura para o grande capital. Sua política privilegia a exportação de comodities, oagronegócio, a monocultura. Nenhum dessas obras traz um benefício direto à população.
Ao contrário: a grande maioria das obras está destruindo comunidades tradicionais como os quilombolas. O pólo naval na Bahia, a implantação do Porto sul, são exemplos disso, alta produtividade, com pouco emprego de mão de obra. São obras do interesse do grande capital, do agronegócio e dolatifúndio.

Afropress - Você foi militante e atuou durante muitos anos no PT. O que aconteceu com o PT?
Hamilton - Todos os meus votos foram no PT. Nós consideramos o PSOL, uma insurgência de quem não aceitou a acomodação do Partido a ordemdominante. Todas as medidas que defendemos para enfrentar as contradições tem caráter anti-capitalista, anti-imperalista e anti-latifundiárias.

Afropress - E que medidas são essas?
Hamilton - A reforma agrária é uma solução para os grandes centros. Uma ampla reforma tributária com a instituição do imposto progressivo, asuspensão do pagamento da dívida externa. Hoje temos mais de 1 trilhão de dívida pública. É preciso fazer a auditoria nessa dívida e só pagar o que forjusto.
São medidas que dão conta de instaurar outro processo de desenvolvimento no nosso país. Queremos o limite de mil hectares da propriedade rural nocampo.Para que a reforma agrária tenha êxito a reforma tem de ser feita em terras produtivas e agricultáveis. A reforma agrária também é solução paraos grandes centros.

Afropress - Como o senhor acompanhou o debate em torno do Estatuto da Igualdade Racial, afinal aprovado pelo Senado e sancionado pelo Presidente Lula?
Hamilton - Nós do Círculo Palmarino, éramos a favor do Estatuto. Esse processo de tramitação, porém, mutilou o Estatuto. O Estatuto tornou-se umapeça fictícia, um meio retórico. Aquilo que é fundamental para a população negra, a enorme dívida social que esse país tem com a população negra foiignorada e o governo do PT em parceria com o DEM nos proporcionou essa farsa.
Na prática não vai resolver o problema do nosso povo. Não reconhece o racismo como elemento estruturante da desigualdade social. Só acreditamos em mudanças através da luta, um programa para o Brasil na perspectiva dos povos negro, indígenas, socialista, multrracial e pluriétnico. A Negritude doPSOL adotou o slogan – "o 50 são outros 500 anos de resistência".
A minha expectativa é de que a classe trabalhadora, o povo negro, os explorados consigam entender a nossa mensagem e aproveitem dessa energiapara construir um processo de afirmação de um novo protagonismo dos Movimentos Sociais. Nós temos de dizer que a única solução para construiruma outra alternativa é a luta, por meio da aliança dos povos negros e indígenas do Brasil.

Fonte: Site Afropress

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