24 de jul de 2010

Sobre conflitos políticos.

Reproduzimos abaixo o artigo que Plínio Arruda Sampaio publicou em 23 de julho de 2010 na coluna "Tendências e Debates" do Jornal Folha de São Paulo

O PSOL e seu candidato à Presidência estão à disposição da mídia e ansiosos para serem sabatinados a respeito de suas propostas para o país. Atendendo ao convite da Folha, exponho a seguir minha visão a respeito das divergências entre o candidato do PSOL (Partido Socialismo e Liberdade) a presidente da República e a presidenta do partido, Heloísa Helena.
Trata-se de sequela natural de uma disputa interna bastante dura, mas já resolvida e que não compromete a disciplina partidária. Com toda probabilidade, o PSOL marchará unido em torno dos candidatos escolhidos nas convenções estaduais e na convenção nacional.
Além desse esclarecimento, o convite da Folha abre-me a oportunidade de tecer dois breves comentários sobre o espinhoso problema das disputas internas nos partidos políticos.
Partidos da direita e da esquerda vivem permanentemente em conflito interno. Aliás, é bom lembrar que o conflito constitui a essência da política. Há, contudo, uma diferença substantiva entre os embates que se travam em cada um desses tipos de partidos.
Na direita, o conflito é acirrado, mas todos procuram não torná-lo público. Na grande maioria dos casos, resolve-se com relativa facilidade, porque gira em torno de interesses pessoais, de cargos, de comissões, de contratos -mediante negociações sigilosas.
Na esquerda, os conflitos são igualmente acirrados (porque todos os seres humanos são feitos da mesma argila), mas espocam como rolha de champanhe e podem terminar em "racha".
Embora esses conflitos nem sempre girem em torno de princípios e convicções (mas também de interesses menores), o componente ideológico está sempre presente nesses embates, o que dificulta a composição.
Além disso, sequelas da refrega demoram mais para desaparecer, porque nesses partidos, e especialmente no PSOL, a disciplina partidária não exige dos que ficaram em minoria abjurar de suas posições.
O PSOL segue o princípio democrático da possibilidade de alternância dos grupos na direção partidária, e isso supõe que todos os seus integrantes tenham plena liberdade para defender suas posições nos âmbitos interno e externo.
Obviamente, uma vez concluída a disputa, todos devem obedecer a decisão tomada e abster-se de apoiar propostas ou candidaturas antagônicas.
Passo agora ao segundo comentário, referente ao fato de que os veículos de comunicação de massa costumam ignorar o debate interno dos partidos de esquerda.
O conflito objeto deste artigo, por exemplo, desenvolveu-se ao longo de mais de um ano e jamais conseguiu obter, apesar do enorme esforço realizado pelas duas partes em noticiá-lo, qualquer informação capaz de fornecer aos leitores uma ideia clara do que estava em jogo.
Não se considerou essa disputa "notícia" de interesse dos eleitores.
Entretanto, o compromisso de imparcialidade implícito no conceito de mídia democrática exigiria a cobertura desses litígios, a fim de impedir que o processo político gire em torno de "pensamento único".
O PSOL e seu candidato estão à disposição da mídia e ansiosos para serem sabatinados a respeito de suas propostas para acabar com a escandalosa desigualdade na distribuição da renda e dos benefícios da riqueza do país (principalmente no campo); a aberrante diferença na cobrança dos impostos; o descaso pela educação, pela saúde e pelo meio ambiente; a redução dos benefícios da aposentadoria; e a criminalização da pobreza.
Os grandes veículos de mídia darão certamente uma grande contribuição à democracia se propiciarem aos eleitores o conhecimento de propostas distintas dos surrados clichês que os três candidatos da ordem estabelecida repetem monotonamente.

PLÍNIO ARRUDA SAMPAIO, 79, é candidato a presidente da República pelo PSOL (Partido Socialismo e Liberdade). Foi deputado federal pelo PT-SP (1985-1991) e consultor da FAO (Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação).

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